Alunos "rebeldes", transformados com o coração

        Relato dois casos de alunos tratados como " rebeldes" por serem extremamente indisciplinados, da escola que lecionei, em 2003, na Grande Porto Alegre, onde os alunos eram egressos de uma realidade econômica e social cruel. Fatos reais que vivenciei.

 Uso nomes fictícios, para preservar a identidade dos alunos.

 Relato um:

      Lecionava nessa escola, onde aconteceu esse fato no ano letivo de 2003. 
    Início do ano, expectativas de ambas as partes, professores e alunos, ansiosos pelo primeiro contato, afinal queríamos nos conhecer, pois durante aquele ano, dividiríamos alguns parcos momentos de nossas vidas.
    Passada a expectativa inicial, dias, semanas, meses transcorriam-se e algumas turmas estavam apresentando problemas com indisciplina. Parávamos a aula, conversávamos e tudo parecia se resolver. 
    Em uma de tantas as manhãs, descortinou-se um cenário, para mim, doloroso.  O aluno Ângelo, sempre  desinteressado nas aulas, chegou atrasado após o intervalo.  Parou na porta da sala  e gritou que não entraria,  pois iria procurar um material de aula que havia perdido no pátio. Pedi que entrasse, dizendo-lhe que eu o ajudaria a procurar, após eu organizasse o trabalho do dia com a turma. Sem importar-se com o que eu disse, saiu sem dizer-me mais alguma palavra. Os colegas se entreolharam e depois olharam para mim como se perguntassem " A senhora não terá alguma atitude?".
    Recomendei à turma uma atividade e saí a procura de Ângelo, não o encontrei, relutante tive que ir a direção e relatar o que havia acontecido.
    Retornei para a sala onde meus alunos me aguardavam e o Ângelo também. Não falei, nem ouvi nenhuma voz. Logo alguém da direção veio chamar o menino, doeu-me...Ele levantou esbravejando e aos berros desejou minha morte. Fiquei em choque, nunca tinha visto tanto rancor em uma pessoa com apenas 13 anos. Entristeci.
    A aula terminou e eu só encontrar-me-ia com essa turma, na próxima semana.
    Passada a semana, eis -me novamente com a turma, o Ângelo me olhava sério e desconfiado, por debaixo da aba de seu boné. Iniciei minha aula, pelo menos tentei... Quando estava escrevendo na lousa o assunto da aula, algo começou a me ocorrer, senti-me enfraquecer, minhas pernas não mais me sustentavam, minha visão estava embaçando, comecei a desabar como uma árvore recém cortada, meu corpo traidor, não obedecia meus comandos. 
    Antes porém, que atingisse o solo, fui amparada por alguém tão franzino quanto eu, que me segurou e colocou-me sentada. Embora com a visão embaçada, pude perceber o meu apoio naquele momento, era meu aluno "rebelde", o Ângelo, o mesmo que na semana anterior havia desejado minha morte e agora estava ali, me amparando.
    Algo mágico, divino, que por palavras não consigo demonstrar, aconteceu. Nós dois, professora e aluno tão distantes comumente, agora aproximados, tocados de um carinho inexplicável.
    Nisso a turma já estava em alvoroço gritando que a "sora" estava desmaiando, uns tinham chamado alguém da diretoria que logo vieram-me acudir.
    Nada grave, minha pressão aos poucos foi estabilizando-se, meu corpo restabelecendo-se, mas algo havia mudado, meu coração não estava mais entristecido. A mágoa tinha esvaído-se pelos meus poros com o suor frio que banhou meu corpo. E meu aluno ali, firme, todo tempo comigo, até eu melhorar. 
    A aula naquele dia, tinha chegado ao fim, mas era o início de uma grande amizade, de uma relação imensa de carinho e afeto, demonstrados todos os dias que compartilhamos, não somente pelo Ângelo, mas por toda a turma.
   

Relato dois

Música: Par de asas-Corciolli
 
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