Alunos "rebeldes", transformados com o coração
Relato Dois:
- Em uma turma de 6ª série desse ano, um outro caso de aluno "rebelde", dessa vez de uma adolescente com graves problemas de alcoolismo em sua família, sua vida conturbada, permeada de conflitos pessoais.
- Essa adolescente ao qual fui sua professora, era uma boa aluna, empenhada e interessada em suas tarefas. No entanto a cada dia, uma mudança, suas bases sendo destruídas aos poucos. Ao longo dos meses, muitos dias sem sua presença e quando resolvia aparecer, era para cantar, dormir, implicar, provocar brigas entre seus colegas de aula. A turma virava um caos quase incontrolável.
- Muitas tentativas de aproximação, quase todas me foram negadas. Algumas raras oportunidades ela abria o livro de sua vida e travestida de inconformidade relatava sobre sua sofrida vida. Trabalhava a noite com seus tios, como "bar-woman", contava-me sobre as suas e as habilidades malabarísticas de seus tios com garrafas, antes de servir nas festinhas nos quais eram contratados. E entre um malabarismo e outro, sua vida foi ficando descontrolada.
- Outras aulas passaram-se, outros dias ausente. Outros dias frequente alfinetando seus colegas. Outras tantas tentativas frustradas de minha parte...
- Numa manhã, após o intervalo - eram esses meus períodos de aula com essa turma - senti uma forte vontade de demonstrar meu afeto por essa aluna, a Esperança, para que ela entendesse que eu somente desejava-lhe o melhor. Fiquei na porta como de costume, até que todos alunos adentrassem a sala, um a um passavam por mim e meu coração cada vez acelerava-se mais, esperando que ela entrasse. Quando Esperança cruzou por mim, a chamei pelo nome e antes que ela esboçasse qualquer reação a abracei demoradamente, dizendo-lhe baixinho o quanto a estimava. Ela retribuiu o abraço, não esquivou-se como pensei que faria, contudo não disse palavra alguma e dirigiu-se ao seu lugar na sala. Outros alunos assistindo aquela cena, levantaram-se de seus lugares e gritavam pela sala que também queriam aquele abraço , vieram a mim e os abracei, com o mesmo afeto que tinha abraçado Esperança. Senti-me aliviada e com tanta troca de energia minha alma sorriu. A aula transcorreu normalmente, ou nem tanto, eu diria...
- Noutra semana, na sala dos professores com meus colegas, uma das presentes comentou que a aluna Esperança, maravilhada, contou-lhe sobre o nosso abraço. Fiquei muito feliz ao saber, pois senti realmente que ela tinha entendido o meu recado sincero, através do abraço trocado.
- E outras semanas seguiram-se com essa turma, não houve mais ausências de Esperança em minhas aulas, nem atitudes de indisciplina, nem de rebeldia. Mesmo quando estava em outra turma, nos dias que não lecionava para ela, essa adolescente agora mais vistosa, mais cuidadosa até com sua aparência, vinha abraçar-me e relatar rapidamente como tinham sido seus dias. E eu? Meu coração transbordava de afeto, parecia não caber em meu corpo pequenino, de tanta alegria, pois sei que com esses alunos eu pude ao menos demonstrar o meu afeto e fazer entender que não estava apenas repassando conteúdos, mas estava também aprendendo...
- Esses relatos são de meus alunos "rebeldes" transformados pelo coração*
*Sabe-se que emoções são transmitidas pelo cérebro, mas a linguagem figurativa eternizou o coração como seu mais sublime representante, pois o coração pulsa, dá ritmo à vida, faz o sangue circular.
Nem todos os dias ganhamos felicidades, mas são as pequeninas vitórias que nos fazem superar os dias que nos fizeram perder.
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